ESTADO DA ARTE
Reflexões sobre Osteopatia, Ciência e Prática Clínica
Vivemos num tempo em que a evidência científica ocupa um lugar central na discussão sobre todas as áreas da saúde. A Osteopatia não é, nem deve ser, exceção.
Investiga-se a Osteopatia, os seus resultados clínicos, os seus modelos de intervenção e os seus fundamentos. Este caminho é necessário e deve ser incentivado. A investigação científica é essencial para o desenvolvimento de qualquer área do conhecimento.
Mas existe uma questão que merece ser colocada:
Estamos verdadeiramente a estudar aquilo que fazemos clinicamente?
A produção de evidência científica não pode ser dissociada da realidade clínica que pretende estudar. Não basta aplicar uma metodologia científica a uma determinada intervenção para que os resultados obtidos traduzam, necessariamente, a realidade dessa intervenção.
Na Osteopatia, esta questão assume particular importância.
Quando o desenho de um estudo, os critérios de seleção, as ferramentas utilizadas, os parâmetros avaliados ou mesmo a interpretação dos resultados não são coerentes com o conceito e os princípios que sustentam a intervenção osteopática, podemos produzir investigação formalmente científica sem que esta consiga, de facto, representar adequadamente a prática clínica que pretende avaliar.
E isto merece uma reflexão séria.
Uma investigação que não consegue captar aquilo que pretende estudar pode não contribuir para o avanço do conhecimento. Pelo contrário, pode criar interpretações erróneas que influenciam a formação, os profissionais, a comunidade científica e a própria perceção da Osteopatia.
E a evidência clínica?
Existe, por isso, uma questão que consideramos fundamental:
Não deveríamos estudar também, de forma sistemática, a evidência clínica que sustenta a nossa prática?
Não devemos considerar a experiência clínica como uma verdade absoluta. Pelo contrário. A prática clínica deve ser constantemente observada, documentada, questionada e submetida a análise crítica.
É precisamente essa atitude que permite transformar experiência em conhecimento.
A Osteopatia nasceu da observação do ser humano e da relação entre estrutura, função e fisiologia no espaço e no tempo. Os seus fundadores procuraram compreender os fenómenos biológicos através da observação das leis que governam a natureza.
A biologia, porém, não é estática.
A vida adapta-se, transforma-se e reorganiza-se continuamente no espaço e no tempo, de acordo com as suas necessidades biológicas.
Os princípios que orientam a Osteopatia não devem, por isso, ser confundidos com técnicas fixas ou modelos imutáveis. Os princípios procuram orientar a compreensão dos fenómenos biológicos e a sua aplicação clínica deve acompanhar a complexidade e a variabilidade da vida.
Do princípio à evidência
Talvez seja este um dos grandes desafios que temos pela frente:
Estudar cientificamente aquilo que efetivamente fazemos clinicamente, sem perder aquilo que define a própria Osteopatia.
Precisamos de investigação.
Precisamos de metodologias capazes de estudar fenómenos complexos.
Precisamos de resultados clínicos devidamente documentados.
Precisamos de investigação que permita estabelecer uma verdadeira ponte entre princípios, prática clínica e ciência.
Se não produzirmos, estudarmos e questionarmos a nossa própria evidência clínica, dificilmente a evidência científica, por si só, poderá responder àquilo que verdadeiramente pretendemos demonstrar.
UM DESAFIO PARA O FUTURO
Esta reflexão não pretende colocar a ciência em causa.
Pelo contrário.
Pretende defender uma investigação científica mais rigorosa, mais coerente e mais próxima da realidade clínica da Osteopatia.
É tempo de estudarmos mais.
É tempo de questionarmos mais.
É tempo de documentarmos melhor aquilo que fazemos.
E é tempo de aproximarmos, cada vez mais, o pensamento osteopático, a prática clínica e a investigação científica.
Porque é nessa relação que se constrói, verdadeiramente, o Estado da Arte.


